16 de dez de 2016

O pior do ser humano é o novo normal

Hoje peço licença para um desabafo. Nada relacionado com o triathlon ou suas modalidades mas sim com o nosso presente. Um momento denso, abafado e asfixiante que nos faz esgotar todas as forças para fazer a esperança não se afogar no mar de vaidade, orgulho e ganância que nos envolve local e universalmente. 

reprodução internet

É aquela situação de família, o entrave no ambiente de trabalho, o descontentamento com situações erradas, o cenário político, a esfera humanitária, enfim, uma somatória de fatores norteados pela vontade excessiva de ter ou receber mais do que os outros. Afinal, é isso o que move o ser humano cada vez mais nos dias de hoje? Por que tantos querem mais e mais ou, pior, tirar o que é dos outros? 

Na definição do dicionário: Ganância: 1. Ânsia por ganhos exorbitantes; avidez, cobiça, cupidez. Ânsia de ágio; agiotagem, usura. 2. Desejo exacerbado de ter ou de receber mais do que os outros.

Na coletiva de imprensa após o jogo do Atlético/PR x Flamengo, no último domingo, o técnico do Furacão, Paulo Autuori (quem admiro muito como profissional e pela maneira de pensar e trabalhar) propôs uma excelente reflexão sobre esse tema: 

“As lições estão aí e apareceram da forma mais trágica possível mas que nós temos que parar pra pensar que falar em tragédia em futebol...tá na hora da gente mudar, de nós mudarmos, nós que trabalhamos com futebol. É impossível que a gente passe por uma situação trágica como essa e não mudemos a nossa maneira de encarar o futebol. [...] O futebol pode dar grande exemplo a todos, principalmente ao nosso país que passa um momento muito complicado e é importante a gente refletir, infelizmente, na maneira mais trágica a gente pode entender o que se passou no país, o que está se passando e tratarmos as coisas com um pouco mais de seriedade em relação aquilo que deve ser o bem-estar dos cidadãos brasileiros.[ Sobre o acidente com a Chapecoense] Não foi um acidente mas uma sucessão de erros. Ali mostra exatamente o que eu to falando sobre o nosso Brasil, a ganância é grande por parte daqueles que teriam a responsabilidade de dar exemplo e só pensam nisso. [...] O momento é muito de reflexão ao menos para aqueles que tem alguma coisa em relação a um sentimento de bem-estar que tem que ser repartido com os concidadãos, com seus semelhantes.” (assista aqui a íntegra entrevista).

Ganância essa que está estampada em nosso país, quando o Congresso Nacional inescrupulosamente aproveitou-se do luto e da comoção nacional em face da tragédia com o vôo da Chapecoense para articular suas manobras. Estas que, na política brasileira, já estão maculadas e desacreditadas, tamanha corrupção que se instaurou no Brasil. É o querer mais, tirar mais, se apoderar sempre mais. MAIS MAIS MAIS MAIS!!! Cifras que ultrapassam o entendimento de qualquer cidadão médio, que cumpre sua jornada de trabalho mal remunerada e contribui com sua carga tributária bem pesada. Uma nação onde os três poderes disputam entre si o maior poderio, usando artilharia de guerra para derrubar o outro, enquanto teriam a obrigação de caminhar juntos, em mútuo auxílio, em prol dos seus milhões de cidadãos.  Um governo que poderia não estar quebrado – em todos os sentidos: econômico, comercial, humano e moral – não fosse a ânsia em locupletar-se indevidamente, por quem deveria dar exemplo. Não se trata aqui de partido político ou posição ideológica mas sim de falta de moral e caráter do ser humano. 

Ampliando o cenário, podemos perceber o quanto o mundo sofre com esse desejo destrutivo pelo poder e pela riqueza. Enquanto a história parecia ter sido marcada apenas pelas atrocidades de Hitler, tivemos depois o genocídio na antiga Iugoslávia e, enquanto muitos acreditavam que Sbrenika serviria de exemplo para que o ser humano não mais atentasse dessa maneira contra a vida de outros, temos os casos de genocídio no Sudão e, agora, os conflitos na Síria, exterminando Aleppo. Casos atrozes julgados pelo Tribunal Penal Internacional que colocam em xeque a existência de virtudes em seres humanos. Em um recente artigo no Jornal The Guardian, questiona-se o porquê da humanidade não ter aprendido nada com Srebrenika, da qual uma sobrevivente declara: 

"Ao contrário, o pior da humanidade está se tornando o novo normal. Quando olhamos por outro lado, definimos o mais perigoso dos precedentes, aquele que faz a minha experiência mais provável de ser repetida. Eu olhei para o cano da arma e sei que a humanidade não pode permitir isso. Assumir uma sobrevivente do genocídio – mais Alepo está em jogo."

O ser humano só aprende com a tragédia. Acredito nisso, muitos podem aprender com a tragédia alheia, porém com muitos outros o aprendizado virá quando atingir a si próprio, além daqueles que vivem na crença de autossuficiência e que jamais serão abalados. Como diria Benjamin Franklin, a humanidade é composta por três classes: as que são imóveis, as que são móveis e as que se movem.

É hora de refletir e se mover. Chamar para si uma responsabilidade mútua e parar de agir como se os estupros morais e éticos fossem parte dessa realidade avessa que se tornou correta. Tornou-se mais fácil se amoldar a cegueira de um cenário desolador a querer  enxergar e se obrigar a mudar para melhor, mesmo que isso implique em abrir mão do orgulho, do poder, da vaidade. É nítido que do jeito que está, seria mais fácil sobreviver a um meteoro ou a uma nova era do gelo (não somente de mentes e corações). Saturou-se do MAIS MAIS MAIS...agora é a vez do MENOS! Que tenhamos apenas ganância de prosperidade, progresso, saúde e bem-estar e que possamos despertar esses sentimentos a nossa volta e, em meio a erros e acertos, conquistas positivas sejam alcançadas.

Para encerrar, Huxley dizia que "o bem da humanidade deve consistir em que cada um goze o máximo de felicidade que possa, sem diminuir a felicidade dos outros". Seria isso uma utopia? 


Citações:
TV CAP
The Guardian
Balkan Insight